Mulher


Mulher, essa espécie esquisita, que os homens não dominam e que as outras detestam.

Sou mulher, e maior parte de vocês também, e carrego comigo estereótipos que me envergonham, que me fazem cuspir na sociedade que caminha ao meu lado. É nojento a maneira como somos tratadas, e pior ainda como nos tratamos umas as outras.

Não faz parte do código genético, mas o nosso cérebro é manipulado desde muito cedo para que sejamos inferiores, submissas, resignadas.

A humanidade prega igualdade, debate sobre ela, leva-nos às lágrimas, mas nada mais que isso.
A igualdade não existe, estamos todos mergulhados numa ressaca cega que cala a luta. Vive-se com a ideia que somos iguais porque a mulher já tem carta, porque a mulher já vota, porque há mulheres em grandes cargos executivos, e o resto? Fecha-se a porta e as mulheres voltam à idade media, isolam-se os homens e somos vacas, isolam-se as mulheres e somos cobras.



Somos vulneráveis, substituíveis, incapacitadas e escravas na visão deles.

Somos invejosas, porcas e putas - não peço desculpa pela expressão - na visão delas.

Não podemos nascer rotulados, não é uma questão de igualdade, mas sim de justiça.

Afirmem-se. Lutem, movam uma montanha, se uma não chegar movam duas, ou três, - sabem que os números são infinitos, não é?  - mas não se resignem.

É hora de parar de achar que depois de uma dia de trabalho temos que chegar a casa e cozinhar porque isso nos compete a nós. De não ter fim-de-semana porque há uma pilha de roupa para passar, o chão para encerar e os vidros para limpar.

Não é normal que tenhamos que sorrir e agradecer quando o nosso corpo é elogiado por um idiota qualquer que de nós só sabe o nome. É ridículo a maneira como olhamos para as outras, o primordial é encontrar o defeito, mostrar um sorriso cínico e fingir que temos tudo para ser amigas.

Umas mais bonitas, outras mais inteligentes, umas mais intuitivas, outras mais ricas, as mulheres são os extremos, podemos ser as melhores amigas ou as maiores inimigas e só no dia em que acreditar-mos tanto nas mulheres que nos cruzam a vida, como acreditamos em nós, é que  vamos dominar o mundo. - e já faltou mais, fica aqui escrito!


É só de mim, ou eu não estou sozinha?


Com o avançar do tempo cresce uma racionalização atroz que se apoderou e tenta perceber que sentido tem a minha vida, que sentido tem a dos outros, o porquê de tanta incapacidade humana em quebrar mentalidades. Mentalidades que destroem cada um de nós aos poucos, sem que metade da humanidade se aperceba disso.

Não me consigo desligar nos noticiários. Não consigo compreender como se passeia tranquilamente sem reparar no olhar de quem passa por nós. Não entendo nada, mas tranquilize-se quem acha que não sou feliz.



Já me explicaram que esta agonia passa no dia em que perceber que estou aqui para viver a minha vida, e o mundo não é da minha responsabilidade. Mas o relógio avança, eu não consigo abstrair-me do que se passa lá fora e cada vez mais percebo que o sentido disto não é merda nenhuma!

"Lá vem ela cheia de moral falar sabe-se lá de quê"

Falo, falo mesmo. Este espaço é meu e se eu quiser falo até do piolho do vizinho do quinto andar, que não tem clube, mas odeio o Benfica.